Sobre escrever e viver
O instável do meu próprio caminho
Boulder de Eva Baltasar é a leitura de Novembro do Clube do Livro Um Passo - exclusivo para apoiadores. O próximo encontro será 07/12/2025. Para participar, basta apoiar a news (2€ ou R$12 por mês) 💙.“E entregando-me com a confiança de pertencer ao desconhecido. Pois só posso rezar ao que não conheço. E só posso amar à evidência desconhecida das coisas, e só posso me agregar ao que desconheço. Só esta é uma entrega real.”
Clarice Lispector - A Paixão segundo G.H
Não preciso ter todas as respostas para agir. Colocar à prova as próprias incertezas, transformar o amadorismo e o não saber em ferramentas, permitir que o tropeço funcione como método. Talvez seja um diferencial num mundo onde tanta gente se move fingindo plena segurança. Criar espaço para o que ainda não conheço, permitir que a narrativa siga a própria rota, sem que eu tente enforcar o caminho com expectativas rígidas. A prática vai trazer o que quero? Alguma coisa ela sempre traz. Encontrar conforto na repetição. Encontrar conforto na repetição. Encontrar conforto na repetição. Lembrar que criar, analisar, corrigir e refazer são estados distintos. Ter as respostas agora ajudaria? Eu estaria pronta? Saberia reconhecê-las? Ou só as converteria em mais um instrumento de controle?
Obstruo meu próprio caminho quando insisto no previsível. Quando imagino placas, manuais, garantias. Tudo isso tem a textura do medo que chamo erroneamente de prudência. Acreditar no que ainda não reconheço exige fé nos recursos que tenho. Tenho? Algum desespero é necessário?
Nunca vivi sem achar que tinha controle sobre tudo, ainda que isso seja uma ilusão do caralho. Abrir mão disso me causa um desconforto, um medo absurdo, uma angústia que toma conta de tudo. Me sinto inadequada, exigente demais, pequena demais. Ainda assim, tento aceitar o que me limita e me comprometer com o que me aproxima. Manutenção constante. Intenção. Sede de ver a história acontecendo. O que está acontecendo quando nada está acontecendo? Há um conflito íntimo entre a necessidade de prever, organizar, antecipar, e a percepção crescente de que a vida que importa não se curva às garantias.
Organizar. Bagunçar. Reorganizar. Honrar meu ritmo. Nem tudo precisa ser resolvido hoje. Não saber o que vem é assustador, mas também libertador, de um tipo de liberdade que ainda não sei lidar, mas tento abraçar mesmo assim porque ela dá coragem e amplitude às minhas tentativas. Não tem sido bonito. Nenhuma metamorfose é. Não me reconheço. Sinto medo. Me agarro ao racional, ao familiar, ao chão que consigo reconhecer. Mas existem momentos, mesmo breves, em que sinto que estou exatamente onde deveria estar. Quando sou a autoridade do meu querer, imperialista no desejo, mas lúcida o suficiente para entender que não domino o que ainda não existe. Para isso, preciso deixar de continuar pedindo e ter a coragem de enxergar o que já tenho.
Consciência angustiante da passagem do tempo. Aquele que me escapa. A coragem de estar consciente da efemeridade do tempo e ainda assim escolher continuar.
Um compromisso com quem sou e como escolhi viver. Um pacto silencioso que faço comigo, uma promessa de não mais fugir, de não me esconder atrás de desculpas. Não terceirizar uma responsabilidade que é minha. Ao mesmo tempo, estar ciente das limitações estruturais de um mundo que nao foi criado para ser gentil comigo, um sistema que raramente atua como aliado às minhas vontades.
Talvez agora eu entenda que nunca estarei à altura da idealização que criei. Quanto mais me aproximo, mais ela muda, inalcançável. Criar é meu modo de tocar a realidade, essa realidade que não se ajusta à versão perfeita que fabrico e que se desfaz ao menor sinal da linguagem. Eu não falo o idioma da idealização que concebi. Mas sou fluente no que posso, de fato, criar na vida real.
*
Encontrei esse texto em um dos meus cadernos. Não sei sobre o que eu falava. Relendo, achei que pudesse ser sobre o processo de escrita do meu livro. Editando para publicar aqui, me dei conta que também pudesse ser sobre o exercício de viver. Ambos os ofícios se confundem.
Para ler:
A gente escreve com o que tem (ou com o que gostaria de ter)





como uma pessoa que acabou de chegar em portugal e deixou toda vida que conhecia para trás, esse texto falou tanto comigo e o que ando sentindo ultimamente. parece que você colocou em palavras o que eu ainda estava tentando compreender. muito obrigada por compartilhar. :)
Amo seus textos, inclusive me inspirou a começar os meus , que dizer postar eles né .