Triste coração roubado
Ithyphallique
“A infância não foi uma manhã de sol:
demorou vários séculos.”
Antonio Cicero no poema <Balanço>
Ele não me pediu para não contar. Não foi preciso. A vergonha e o medo se instalaram em mim com tanta força que ficou evidente: eu jamais falaria.
Durante anos, organizei a minha vida como se o que me aconteceu ainda estivesse prestes a acontecer de novo. Inalterado e imutável. Como se o passado não fosse passado, mas uma ameaça contínua. Como se vinte e cinco anos e muitos quilômetros não fossem suficientes para criar a distância necessária do nojo que me atravessou inteira e reorganizou a arquitetura da minha vida.
Cedo entendi que a <racionalização> me ajudaria a entender o que me aconteceu. Estudar, escrever, ler tudo a respeito, conversar com profissionais. Sabia que estava fadada a pensar nisso a vida toda, a analisar cada detalhe daquele domingo. O que eu não sabia, na altura, é que lucidez alguma seria capaz de desfazer aquele dia. A razão e o conhecimento organizam, mas não apagam.
Escrevo na tentativa de compreender (recriar? inventar?) o que me aconteceu, esperando tardiamente ser entendida por alguém. Primeiro por mim. Mas tenho medo dessa compreensão toda me colocar outra vez num lugar de vítima que me custou tanto sair. Esse foi o meu modo de estar no mundo. Desde o que me aconteceu, comecei a ter pena de mim mesma. O que foi uma lástima. Escrever sobre isso fará com que eu volte a esse lugar?
Fui vítima uma vez. Depois me tornei sobrevivente. Sobrevivente de um crime que prescreveu, mas que antes foi absolvido pelo tribunal íntimo da família, onde todas as causas são pequenas demais para serem levadas a sério.
Não contei antes porque achei que estragaria a vida dele.
Por ter escolhido o silêncio, acabei estragando a minha.
Eu tenho seis anos.
É domingo. Estamos na casa da minha avó. Brinco com meus primos, corro, grito, rio alto. Meus pais levantam para ir embora, mas eu quero ficar. Eles deixam, alguém me leva para casa depois. Estamos em família, não há perigo. O dia se arrasta devagar, como se o tempo quisesse prolongar uma falsa sensação de segurança.
Rápido demais, ele me pergunta se quero ir para casa. O céu ainda está claro, o domingo ainda não quer acabar. Digo que não, mas ele insiste. Pergunta de novo, e de novo, até que aceito. Me sento então no banco do passageiro da sua Caravan vermelho escuro.
Ele liga o rádio e aumenta o volume. Está tocando Estou Apaixonado de João Paulo e Daniel. Avançamos alguns metros e paramos debaixo de uma árvore que parece abraçar o carro. Nem ela nem eu sabíamos que ela seria a cúmplice do que aconteceria. Então, acontece.
As folhas da árvore, numerosas e pesadas, dançam num movimento confuso e criam sombras sob uma parte do corpo humano que eu nunca tinha visto, mas que penso ser muito cedo para conhecer. Não sei como esse pensamento se forma, mas alguma coisa registrada em mim sabe que isso não deveria estar acontecendo. Tinha a ciência de que uma fronteira invisível estava sendo atravessada.
Eu resisto. Meu corpo inteiro se dissolve, sem saber que jamais conseguiria se recompor de novo. Ele agarra a minha nuca. Sua mão ocupa quase toda a circunferência do meu pescoço. Minha cabeça é levada a força em direção a algo morno, minha garganta se fecha e seguro a respiração como se fosse eu a cometer um crime.
Ele me chama de putinha. Ainda não sei o que isso significa, mas, por algum motivo, essa palavra - que ainda não consta no meu dicionário infantil - perfura os meus ouvidos e inaugura o horror em mim. Validando o próprio prazer, ele me pergunta: tá gostando, não tá? Numa encenação de consentimento. Ele repete essas palavras para si mesmo, tentando se convencer disso, mas é evidente que não, eu não estou gostando.
Naquele momento, mesmo sabendo muito pouco sobre o mundo, me dei conta de que ali se iniciava o inferno pelo qual eu ainda ia passar. Um território do qual eu nunca mais sairia completamente.
A lembrança desse dia é muito precisa, embora alguns detalhes importantes me escapem. Eu não me lembro, por exemplo, de como voltei para a casa dos meus pais. Será que, enquanto caminhava, com medo e incerta do caminho, eu sabia que me despedia da minha infância? Como cheguei até lá? Será que bati palmas no portão? Chamei o nome do meu pai ou da minha mãe? Cheguei chorando? Alguma coisa mudou no meu comportamento? Meus pais estranharam o meu jeito?
Não lembro.
Mas lembro de não ter contado para ninguém.
E por não contar, o que aconteceu nunca termina. Ele permanece suspenso, contaminando cada novo encontro, cada gesto de intimidade, cada relação com o meu próprio corpo.
Guardei esse segredo até que ele se tornasse eu mesma e criei uma vida inteira para esquecer aquele dia.
O texto acima é uma síntese do livro que estou escrevendo.
Compartilho aqui na newsletter porque quero testar o meu próprio nível de tolerância à exposição pública desse tema. Quero observar o que acontece comigo quando o assunto deixa de ser apenas íntimo e passa a circular. E quero sentir a temperatura das reações de vocês - não como medidor de aprovação, mas como forma de entender se essa história, ao sair de mim, ainda me pertence.
Fugi da escrita deste livro por tantos anos que já não sei se era medo ou uma espécie de cuidado excessivo comigo mesma. Temia perder o controle da minha própria narrativa, que as palavras me traíssem. Temia também não me compreender a ponto de não conseguir me explicar. E se as memórias, frágeis como são, cedessem ao peso da palavra? E se eu perdesse o encadeamento lógico dos fatos e ficcionasse até as memórias mais reais?
Tinha medo também de descobrir que escrever não mudaria nada.
E, de fato, não muda o passado.
Nenhuma frase devolve a infância a uma menina. Nenhuma construção sintática desfaz um gesto. A literatura não reverte o que foi feito. Mas escrever desloca o lugar da vergonha. Uma vergonha que não nasceu comigo; foi aprendida, incorporada, normalizada dentro de uma estrutura que prefere o silêncio à ruptura. Durante anos a tratei como defeito íntimo, como traço de personalidade, quando na verdade era resíduo de uma violência que nunca me pertenceu. Reconhecer isso interrompe um ciclo: o excesso de hesitação, o acúmulo de medo, o frequente arrependimento.
Não sei o que acontecerá quando este livro estiver pronto. Não sei se haverá alívio, encerramento ou apenas outra camada de consciência. O que sei é que já não organizo a minha vida como se aquilo ainda estivesse acontecendo.
Publicar este trecho aqui é parte desse movimento para fora daquela Caravan vermelho-escuro.
Obrigada por ler.
Triste coração roubado é um verso do poema "Le Cœur volé" de Rimbaud.
Ithyphallique é um termo usado principalmente em arte e mitologia para descrever a representação de um pênis ereto.
O poema “Balanço” de Antonio Cicero está em sua coletânea chamada fullgás: poesia reunida.
Herdeiras do mar de Mary Lynn Bracht é a leitura de Fevereiro do Clube do Livro Um Passo - exclusivo para apoiadores. O próximo encontro será 08/03/2025. Para participar, basta apoiar a news (2€ ou R$12 por mês) 💙. Para ouvir:
A soundtrack de Sentimental Value (sim, estou obcecada pelo filme).





Somos muitas saindo do Caravan com você.
Quando você coloca uma história dessas para circular, sinto que também colocou a que eu não tive coragem de contar ainda, obrigada Tamires <3