O Desabamento
A minha infância acabou cedo. A dele, nunca teve um fim.
Quem apoia financeiramente a newsletter tem acesso a conteúdos exclusivos e ao Clube Um Passo: encontros mensais para conversarmos sobre livros previamente escolhidos por mim. Lá, destrinchamos cada leitura ao máximo, explorando seus principais temas, mas também as experiências individuais que possam dialogar com o livro.
Nesse mês, estamos lendo Nada nasce ao luar de Torborg Nedreaas e o próximo encontro será 14/06 às 16h BR - 20h PT.
Nossa infância arruinou a nós dois. Fomos moldados por uma ausência tão constante que deixou de parecer ausência e passou a ser o próprio ambiente. Não houve proteção. Antes disso, não houve atenção — o gesto de reconhecimento que diz a uma criança: eu te vejo.
Eu, mesmo sendo a mais nova, me tornei adulta aos 6 anos. Ele nunca deixou de ser uma criança. Aqui, as questões de gênero influenciam: esperavam que eu fosse mais compreensiva, mais calma, mais fácil, diria até mais domesticável. Nele, a raiva que eu também sentia podia ser expressa sem disfarce — ele tinha o aval para gritar, quebrar os objetos da casa, bater nos colegas da escola, transformar o próprio desespero em espetáculo. Sua dor ocupava os cômodos da casa. A minha precisava caber no meu pequeno corpo. Eu tinha que conter a minha raiva, engolir todas as palavras que queria jogar em cima dos nossos pais, chorar e vomitar escondida.
O pedido de ajuda dele era evidente e mesmo assim não foi atendido. O meu, soterrado por camadas de ressentimento, vergonha, culpa e uma disciplina emocional aprendida cedo demais, muito menos.
O que nos diferencia não é a dor, mas a forma como ela foi autorizada a existir. A dele podia incendiar a casa. A minha precisava conter todo o fogo.
Foi então que entendi: para dar vazão a quem eu era — sobretudo a quem eu queria ser — eu precisaria sair. Correr para longe da lógica em que fomos criados, essa lógica que era a mesma para nós dois, mas que nos devorou de formas diferentes. Encontrar um lugar onde eu pudesse construir janelas que dessem para dentro e para fora. Onde eu pudesse olhar o mundo e a mim.
E fui.
E você ficou.
“Isso eu também não disse, nem a você nem a ninguém: quando entendi que a única opção era fugir, procurei todas as saídas possíveis. Não passava um dia sequer sem que eu pensasse, Tenho que ir embora, tenho que ir embora — essa frase se tornou parte de mim.”
Mudar Método: Édouard Louis
Entre nós surgiram oceanos feitos de pequenas coisas: cidades, anos, silêncios, versões diferentes da mesma memória. O pouco contato que existia tornou-se ainda mais raro.
Sob o mesmo teto que compartilhei com o meu irmão, eu sofria por expressar minhas ideias numa linguagem que para ele mais escondia do que revelava. Revelava as diferenças entre nós a ponto de restar pouquíssimas semelhanças. Essa separação, que eu quis mais do que qualquer outra coisa, é o que fez de nós dois estranhos com o mesmo sobrenome. Me sinto hoje mais fraterna a pessoas que conheci em filas de banheiro químico do que ao cara com quem convivi durante vinte e três anos.
Talvez eu ainda pense vez ou outra “queria me aproximar dele” apenas porque sei que é mentira, e protegida pela impossibilidade de levá-la a sério, possa me esconder nessa bonita, poética e falsa intenção; talvez, no fundo, eu saiba que sou feliz vivendo uma vida que não se parece com a do meu irmão. Feliz com esse silêncio que há entre nós.
“O Desabamento” é um livro de Édouard Louis.
Para ler:
Para assistir:
Sentimental Value (sim, ainda não superei). Principalmente, por essa cena.






Esta é tbm a minha experiência.
Essa fui eu, corajosa, que parti, nao aos 23 mas aos 17.
Ele ficou, ausente, com ela, como ela. A mãe que não queria e nem sabia ser mãe.
Eu fugi e aos 21, a mae ausente veio pedir me ajuda. Manipulação emocional. Tardei em ceder mas dadas as circunstâncias, tornava me igual a ela. Ausente e peofundamente desumana. Fui. Levei a minha nova familia. Ele e ela mantiveram se iguais. Ele perturbou a realidade externa, depois de nao ser suficiente o seu desligamento interno. Fui licenciar me em psicologia para o auxiliar. Para, inclusive, combater o diagnostico que se manteve interrogado porque a figura da progenitora e carreirista na área da saúde mental tinha influência ao nivel micro e macro. Esquizofrenia? Não, eu própria haveria de lutar por um diagnóstico diferencial que permitisse que aqueles quase dois metros de altura pudessem suportar um estigma mais leve. Perturbação bipolar. E ficou. Só não se pode manter sem o sódio e o litio durante muito tempo.
Ele tornou se meu inimigo á distância. A única prova que me garantia que não era eu o alvo desse ódio fora a carta que eu lera dele dizendo que odiava a mãe e todas as figuras femininas e sobretudo maternais.
Queimou tudo, sobretudo a minha vida, quando ela reformada tentou, finalmente fazer se presente. Ela rejeitou o e mais uma vez eu fui o alvo dela. E também dele. Estou a cuidar dela no seu fim de vida. Sempre fui mãe da minha mãe. Tentei preencher os hiatos afetivos criados pela orfandade precoce dela. Tentei fazer o mesmo com ele, o meu irmão. Hoje não convivo com ele. Cortei lhe o acesso a mim mas não a ela. Quando o fiz, ele por manipulação e perda do controle sobre mim, afastou se completamente dela. Ligava lhe quase todos os dias. Aparecia sem aviso. Já lá vão quase 4 meses que nao lhe telefona, nao vai vê la. Não vai buscar o dinheiro que era uma das forças propulsoras de o ligar ao núcleo. De se castigarem mutuamente. Sobro eu com ela. Por obrigação moral. Grata pelo feedback. Existem outras pessoaa e outras linhas de tempo. Nessas, eu sou livre. Sou alforriada e progenitora de mim. Materno me saudavelmente
Sempre adoro te ler!